Alentejanos vão às compras ao Rosal de La Frontera

19 11 2008

Com preços mais baixos em bens essenciais como os combustíveis e produtos alimentares, centenas de alentejanos acorrem em grande número a Rosal de La Frontera à procura de poupar o máximo possível na sua magra economia familiar.

Diz o ditado popular que de Espanha “nem bons ventos nem bons casamentos”. Mas essa velha expressão parece estar a perder o sentido nos dias de hoje. Pelo menos, os “casamentos comerciais” estão a funcionar, já que cada vez há mais espanhóis a investir em Portugal e em concreto no Alentejo. Em sentido inverso, cada vez mais portugueses estão a fazer negócios em Espanha, por várias razões. O Centro do Sul visitou Rosal de La Frontera, conhecida aldeia espanhola, situada a dois quilómetros da fronteira de Vila Verde de Ficalho. Esta localidade raiana da província de Huelva, Comunidade de Andaluzia, conta com cerca de 1.820 habitantes (dados de 2007). E desde sempre que as suas gentes se habituaram a ouvir falar a língua de Camões, sobretudo nas lojas muito frequentadas por alentejanos. Com a fronteira aberta e o euro como moeda comum, as diferenças nos preços dos bens e serviços saltam mais à vista desarmada. A maior diferença sente-se nos combustíveis, no gás e na carne. Bens de primeira necessidade que os portugueses vão adquirir a terras de nuestros hermanos. João Rosa, residente em Moura, é presença frequente no Rosal e garante que num cabaz de compras chega a poupar “mais de 50 euros”. Ao mesmo tempo, aproveita para atestar a viatura. Também Miguel Mestre vai com frequência ao pueblo espanhol, “propositadamente e para atestar a viatura”. Garante que a viagem de 60 quilómetros que faz em cada sentido entre Beja e Rosal, “ainda assim compensa”. E sublinha que poupa, “pelo menos, 15 euros” num depósito de gasolina, ao mesmo tempo que aproveita para “comprar carne de boa qualidade e dar um passeio”.Para Sérgio Martins, residente em Serpa, “compensa sempre atestar o carro em Espanha”. Já há bastante tempo que o alentejano tem esta atitude e garante “continuar a fazer o mesmo enquanto puder”.

Comerciantes satisfeitos

Emílio Banda Vásquéz é um dos mais antigos e conhecidos comerciantes do Rosal. Herdou o negócio do tempo do seu avô e ainda hoje mantém em funcionamento a loja no centro da localidade. Este homem não esquece “a ajuda que os portugueses têm dado ao negócio ao longo dos anos”. E realça que, “em geral, os portugueses procuram mais os perfumes, caramelos, roupa e calçados”. Com o aproximar do Natal, Emílio garante que “as vendas vão seguramente aumentar”. José Damián Gonzáles, presidente da Associação de Comerciantes do Rosal de La Frontera, teve sucesso com a sua loja de carnes e enchidos. Instalou-se no ramo em 1986 e já conta com explorações pecuárias próprias, incluindo no Alentejo, um matadouro no Rosal e uma outra empresa neste lado da fronteira, em Vila Nova de São Bento. Para além disso, abastece grandes cadeias como o Jumbo, Grupo Pingo Doce, Feira Nova, Modelo e Continente. Para este empresário, “os portugueses procuram muito a carne de porco preto, bem como os enchidos”. “Nós criamos, matamos e comercializamos os nossos animais, o que faz com que o que cobramos pelo produto final seja mais baixo. E o IVA mais baixo em Espanha é outra das razões para que os portugueses economizem ao comprar no país vizinho”, esclarece Damián Gonzáles.

Combustíveis seduzem

Mas uma das principais razões que atrai os portugueses ao Rosal de La Frontera é o preço dos combustíveis e do gás. Uma botija de propano custa actualmente pouco mais de 13 euros, enquanto que por cá ultrapassa a barreira dos 20 euros. Já a gasolina 95, a mais utilizada, estava há uma semana a 95 cêntimos por litro, enquanto que em Portugal se situava em 1,25 euros. Joaquín Capelo é proprietário do posto de abastecimento à entrada do Rosal, a cerca de um quilómetro da fronteira. O mesmo refere que, “neste momento, esta é a estação de serviço com os preços mais baixos de toda a província de Huelva”. O empresário não tem dúvidas quando afirma que “são centenas os portugueses que todos os dias atestam os carros aqui”. E explica que o preço mais baixo é conseguido “pela diferença do IVA, pelos impostos cobrados pelo Estado espanhol e pela margem de lucro menor”. Paralelamente à gasolineira, este empresário detém uma oficina de mudança de pneus, “mais baratos do que em Portugal”, e tem em curso a instalação de “uma máquina especial para lavagem de viaturas”.No espaço contíguo à estação de serviço, Joaquín Capelo abriu um supermercado de média dimensão, da marca Eroski, a terceira maior cadeia do país vizinho. Como “as coisas estão a correr muito bem”, também tem projectado a construção de uma residencial e de um restaurante “mesmo ao lado”. Sem grandes hesitações, Joaquim Capelo admite que “os portugueses são o motor de desenvolvimento do Rosal de La Frontera”.

NÚMEROS

1.820. habitantes residem em Rosal de La Frontera, “paredes meias” com a fronteira e Vila verde de Ficalho.

50. é o valor estimado da popupança num cabaz grande de compras no supermercado Euskadi, em comparação com os valores praticados em portugal.

60. quilómetros separam a cidade de Beja da localidade espanhola de Rosal de La Frontera.

13. euros é o preço de uma botija de gás propano em Espanha. Menos sete euros do que em Portugal.

“Sem os portugueses o Rosal estava morto”

José Damián González é empresário há 22 anos. Desde 1986 que tem estado sempre ligado ao comércio de carnes e enchidos. Dirige a conhecida empresa “Cárnicas Rosal” e é presidente da Associação de Comerciantes do Rosal de La Frontera. Em declarações ao “Centro do Sul”, Damián González assegura que “a empresa se dedica a 95%” à criação e comercialização do porco preto alentejano. Uma das vantagens é o facto de “todos os dias serem abatidos animais no matadouro do Rosal, o que faz com que exista sempre carne fresca”. O facto do local de abate pertencer à mesma empresa, faz com que os preços sejam mais baixos, “o que agrada muito aos clientes portugueses”.Para o empresário e presidente da Associação de Comerciantes, “o facto do IVA máximo em Espanha ser de 16% e em Portugal 20%, faz com que, só por esse motivo, os preços praticados sejam inferiores, o que é um chamariz para os lusos”. O mesmo garante que, “se não fossem os portugueses, o Rosal estava morto”.Este empresário, que também detém uma empresa de carnes em Vila Nova de São Bento, é realista e admite que Espanha “atravessa uma grande crise económica neste momento”. Mas refere que, “apesar de em Portugal a crise estar instalada há mais tempo, essa situação foi aparecendo lentamente”. “Aqui as coisas aconteceram repentinamente”, frisa.No país vizinho a taxa de desemprego situa-se já nos 14%, com uma média diária de 6.500 pessoas a perderem os seus postos de trabalho.Gasolina tem preço sedutorNão é novidade para ninguém. Basta atravessar a fronteira e o preço dos combustíveis baixa muito significativamente. Em Rosal de La Frontera, os gasolineiros da “Estacion de Servicio Capelo” não têm mãos a medir para atender tantos portugueses, chegados de todo o Alentejo mas também de outras partes do país. E tudo se explica com o preço significativamente mais baixo…Um litro de gasolina sem chumbo 98 custa 1,059 euros e, no caso da mais utilizada, a 95 sem chumbo, esse valor desce para 95 cêntimos. É só fazer as contas e, num depósito com 40 litros, o ganho pode atingir os 12 euros de popupança – convenhamos que não é pouco!Mas as cotações de produtos básicos em Espanha estendem-se ao gás e a muitos produtos de primeira necessidade. Assim se explica que, depois de atestados os depósitos, muitos portugueses procurem as lojas e supermercados, talhos e sapatarias. Aí encontram preços mais baixos, às vezes com qualidade questionável, mas quase sempre com interresante resultado nas magras carteiras nacionais.

“Costumes têm séculos e não se perdem

Emílio Vásquez é um dos comerciantes mais conhecidos no Rosal de La Frontera e figura muito popular na raia portuguesa. Dirige uma loja de média dimensão na Avenida de Portugal desde sempre, herdando o negócio do seu pai e que já vem desde o tempo do seu avô. Uma história com cerca de 80 anos que mistura “relações profissionais com afectos pessoais”, garante Emílio, como é mais conhecido. Este comerciante afirma que o hábito dos portugueses de ir fazer compras ao Rosal “é uma tradição” e assegura que “estes costumes são de séculos e não se vão perder”.

Texto e foto: NM

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